2018 - Erasmus em Itália

Itália#1: um dia na Lombardia.

Se há país europeu com cultura esculpida nas rochas gastas, no mais absoluto pormenor paisagístico, no linguajar gesticulado das pessoas, esse é Itália! E esta identidade, parece correr o país de norte a sul, mesmo longe da capital,  tal como pudemos vivenciar em Milão, onde começamos.

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Não é uma cidade fácil. Longe disso. Enorme, e com demasiadas linhas retas, mas estranhas, ao alto, criou-nos uma sensação de um corpo sobredimensionado, onde faltavam pessoas, que quase não vislumbramos. As poucas, talvez por ser domingo, talvez pelo frio, torneavam a faraónica Stazione Centrale, uma obra feia e feita por um ditador que,  assim, impunha um regime.

Neste momento, estamos a editar este artigo num comboio que nos leva ao sul, à Toscana e a Pisa. Temos o Mediterrâneo a oeste, e restos de neve nos altos acantilados, a leste. Vamos na excelente companhia de outras aventuras, mas levamos também outra, que é, afinal, o motivo central deste Erasmus. Pela janela vemos frio, neve, e o entardecer. Estamos cansados, restam ainda umas horas de comboio, as fotos, e necessitamos descanso. A jornada vai longa, e amanhã voltamos a relatar.

Itália#2: Pisa, a cidade acolhedora.

À medida que crescemos, refinamos também o nosso conceito turístico e damos cada menos valor ao ver e marcar presença, em prol da experiência, da sensação. Para nós, e por outras palavras, os lugares comuns, próprios das massas, já não rivalizam com os becos medievais, um bom café mesmo no centro de da cidade, e por entre os seus habitantes, ou a simpatia do dono de uma pizzeria a sério, quente e acolhedora, que proporciona conversas que nos fazem esquecer o tempo. Foi o caso…

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A cidade de Pisa é perfeita para o ensaio desta abordagem turística, que se vive pela experiência e não pela conquista da fotografia. De tamanho pequeno e gente afável, faz-nos recordar o nosso Porto, e a sensação que provoca nos estrangeiros que a visitam, recomendam e voltam a revisitar.

Hoje, bem cedo, começamos na Escola Técnica Leonardo Da Vinci. Trata-se de uma escola que data do tempo do regime, cujo edifício possui portas altas e janelas a condizer, parecendo impor os superiores valores da nação. É, contudo, o que resta de outros tempos, num hoje espaço habitado por uma fauna moderna, que usa “phones” e colunas Bluetooth, estuda mecânica, química, aeronáutica ou informática.

Os nossos alunos, a Ana, a Inês e o Pedro, também brilharam no dia, nomeadamente na apresentação da nossa escola e do seu programa Erasmus. Foi a mais curta das apresentações, mas a melhor: isto porque simples, alicerçada numa excelente pronúncia do inglês, algumas fotos e dois vídeos. Uma lição há a retirar deste ato.

Depois de uma manhã intensa, tivemos um momento de história ao vivo: a visita ao complexo histórico em torno da Torre de Pisa. Tratou-se de uma visita guiada e falada em inglês, onde confirmamos o vergar do campanário de mármore, assente em alicerces pouco seguros, movediços, retrato de um monumento nacional que se tornou num dos mais fotografados segundos planos do mundo. Alguém sabe falar da mesma?

Itália#3: o sol, a luz, o frio e a cultura.

A chuva foi-se, o vento amainou, e pudemos, durante a pausa dos trabalhos, fazer aquilo que muito gostamos, sê romano em Roma. Voltamos à torre, cuja luz da manhã realçou a candura do mármore branco. É um edifício imponente, sobretudo por representar Itália, país onde os monumentos são prolíferos.

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Participamos também numa tertúlia intercultural com todos os professores deste programa Erasmus - Yours Rights are My Rights, dirigida pela Universidade de Pisa. O tema, debatido na sala 50, e com cheiro a café, foi paz, a interligação cultural entre os povos, e a evolução deste conceito.

Ao fim de três horas, concluímos o que apregoamos; e o que apregoamos é que as soluções requerem ousadia e imaginação, nunca passividade. O arrepio, por exemplo, não nos traria a esta cidade, cujo bulício do entardecer é belo, e põe em cena os vários ocres das fachadas dos edifícios renascentistas e proeminentes.

Itália#4: as pessoas e as pedras.

Há anos que trabalhamos numa abordagem vivencial do turismo, aquele que se rege pelas experiências e sensações turísticas, que não despreza a perspetiva cultural da atividade, mas não a consome como um todo. Chamamos-lhe Turismo das Sensações, e definimo-lo pelo experimentar a vivência dos habitantes dos locais visitados, nos seus mais variados contextos e tempos, absorvendo a sua experiência quotidiana. Um dia, abordaremos melhor esta nossa proposta.

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Visitamos hoje, dia de S. Valentim, Florença! Vimos (sentimos) hordas de turistas em filas indianas, seguindo bandeirinhas que, por suposta utilidade, não os faziam perder a rota. Mas também não lhes conservava a liberdade e prazer da descoberta de uma cidade que é bem mais do que uma redução a igrejas de mármores e pontes. Tal como qualquer cidade.

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Na verdade, gostamos dos imponentes monumentos e do ocre, mas demos por nós a amar o sol do final da tarde, numa escadaria junto à Stazione Central florentina, por entre italianos, poucos turistas, migrantes de cor, e muitos indigentes da vida. Nela, sentimos o palpitar da cidade, o bastante.

Itália#5: cultura e propósito.

Dedicamos o dia à cultura e ao que lhe é permitida esperar. Começamos por Keith Haring,  um artista plástico, e ativista, norte-americano que pintou na fachada lateral de um dos velhos edifícios pisanos, Tuttomondo, um mural dedicado à paz universal. E pintar, como qualquer ato cultural, sempre um ato implícito, nem sempre óbvio; e é isto a cultura: nem sempre direta, mas sempre com um propósito.
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Mais. Não há culturas melhores ou piores. O eco de um arrepiante trompetista, que nos arrepiou à distância, numa gélida manhã de Pisa, é equivalente, em valor, ao que brilhou numa sala de ensaio, do Teatro di Pisa, envolvendo alunos de várias nações do Programa Erasmus, fazendo a cultura rumar por caminhos cruzados de entendimento, com paragens e propósitos diferentes.
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Artigo da responsabilidade da Geopalavras